Santa Tereza sempre foi o bairro boêmio de BH. Mas o sucesso dos bares e restaurantes trouxe valorização imobiliária e uma pressão que está mudando o perfil dos moradores.
Eu moro no Santa Tereza há 30 anos. Vi o bairro passar de lugar "perigoso" a destino gastronômico, de território de artistas sem dinheiro a endereço cobiçado por jovens profissionais de renda média-alta. Vi amigos de décadas serem forçados a se mudar porque o aluguel dobrou. E vi novos moradores chegarem, muitos deles ótimas pessoas, que adoram o bairro — mas que, sem querer, contribuem para transformá-lo no que não era.
Isso tem nome: gentrificação. E Santa Tereza é um caso de manual.
O processo começou de forma discreta, nos anos 2000, quando artistas e boêmios começaram a ocupar os casarões coloniais do bairro, atraídos pelo aluguel barato e pela atmosfera. Os bares vieram depois, aproveitando a clientela já formada. E então vieram os restaurantes, as lojas de design, os hostels.
Hoje, Santa Tereza tem mais de 80 bares e restaurantes ativos, segundo levantamento da Associação Comercial do bairro. O metro quadrado para compra subiu 65% em cinco anos. O aluguel médio de um apartamento de dois quartos passou de R$ 1.200 para R$ 2.800 no mesmo período.
"Eu amo o Santa Tereza. Mas eu não consigo mais morar aqui", diz a artesã Vera Lúcia Gomes, 58 anos, que viveu no bairro por 25 anos antes de se mudar para o Barreiro em 2024. "Meu aluguel foi de R$ 900 para R$ 2.100 em três anos. Não tinha como."
A Prefeitura de BH criou em 2025 um grupo de trabalho para discutir políticas de habitação em bairros com alta pressão imobiliária. Uma das propostas em debate é a criação de zonas de proteção cultural, que limitariam o uso comercial em determinadas ruas para preservar o caráter residencial.
"Não é contra os bares. É por um equilíbrio", diz a arquiteta e urbanista Camila Fonseca, que participa do grupo. "Um bairro que vira só entretenimento perde a alma."
Enquanto o debate acontece, os aluguéis continuam subindo. E os moradores de sempre continuam se mudando.